Deficiência e Beleza Num Mesmo Corpo (Regram-ABCD Maior)

Fotógrafa do ABCD cria agência de modelos para pessoas com deficiência e crê que fotografia ajuda a recuperar a autoestima!

 Juliana Caldas tem 26 anos. É atriz, modelo e tem nanismo.

eleza é, antes de tudo, uma questão cultural. No Renascimento, por exemplo, bonito era ser gordinho, pois era sinal de fartura. No Brasil, com seu clima tropical, é legal ser bronzeado, enquanto na Coréia do Sul é ser bem branquinho. No século 17, os espartilhos diminuíam as cinturas das mulheres para mostrar que eram frágeis, hábito que mudou a partir do século 20, com a emancipação feminina. E quem não se lembra dos anos 1980, com sua moda peculiar e cabelos cheios de permanente? Cultura é dinâmica, está sempre mudando. Então, como delimitar o conceito do que é belo?

O que lhe vem à mente quando se fala em agência de modelos? Mulheres e homens altos e magros, não é? Há mais de uma década funciona na Capital a agência de modelos Kica de Castro, especializada em pessoas com deficiência. Diante das lentes de Kica, a beleza surge num olhar, num movimento de cabelos, num sorriso, mas acima de tudo a beleza está na atitude.

Tudo começou quando Kica, que é de São Caetano, trabalhava em agência de publicidade. A fotografia era apenas hobby. Até que resolveu investir naquilo que realmente a fazia feliz: tornou-se fotógrafa profissional e atuava em eventos sociais. Passados dois anos, a vontade de encarar novos desafios levou a fotógrafa a enviar seu currículo para um anúncio de classsificados de empregos. Era uma clínica de reabilitação física. Antes, vestidos de gala e penteados elaborados, agora, fotos para prontuários que serviam para registrar a evolução dos pacientes.

O que Kica encontrou na clínica era um tanto impessoal. Os pacientes eram tratados por números, ninguém respondia ao seu “bom dia”, e as fotos eram feitas sem nenhum preparo, ainda que os pacientes precisassem ficar seminus. “Parecia um fichamento de polícia”, comparou. Em três meses pensou em desistir, a barra era pesada. Foi numa conversa com uma amiga psicóloga que recebeu o conselho de tratar a todos com naturalidade. No dia seguinte foi à rua 25 de Março, em São Paulo, e comprou brincos, chapéus, gel, maquiagem…

“Eu brincava que as fotos eram para ensaios de moda, aos poucos recebi os primeiros sorrisos”, contou. Quando os pacientes viam o resultado, ficavam felizes, se achavam bonitos, aprenderam o nome de Kica. Logo a fotógrafa recebeu os primeiros pedidos de books e ganhou impulso para abrir a agência, que começou com cinco modelos e hoje conta com 85, entre homens e mulheres com diversos tipos de deficiência. Cadeiras de roda, próteses e muletas fazem parte da produção. “São acessórios de moda.”

Para Kica, o maior desafio de seu trabalho é vencer barreiras de preconceito e mostrar que a beleza está em todos os lugares. Mais que isso: mostrar que a beleza também faz parte da inclusão social. “Existem concursos de beleza para deficientes. Mas isso não é inclusão, inclusão será quando a cadeirante fizer propaganda de pasta de dente, roupa, ou mesmo a gordinha, desfilar ao lado da Gisele Bündchen”, disse, ao afirmar que as gordinhas também fazem parte do grupo “fora do padrão”, e que mesmo a recente evidência das modelos plus size não apazigua o preconceito. “Enquanto uma modelo plus size tem cinco minutos de fama, a mesma mídia apresenta uma avalanche de preconceito como piadas na novela e mil programas sobre dieta.”

A maior satisfação é quando um dos modelos elogia seu trabalho e se sente representado. “A fotografia ajuda a recuperar a autoestima das pessoas”, acredita ela, que abusa nas poses e não usa photoshop. O lema de sua agência é a música Infinito Particular, da Marisa Monte. “Vem, cara, me retrate. Não é impossível, eu não sou difícil de ler… Faça sua parte, eu sou daqui eu não sou de Marte”, diz a letra.

Juliana gosta de estar entre amigos, sair, se arrumar, se sentir bonita. Como qualquer garota de sua idade. A diferença é que ela tem nanismo. Há três anos Juliana conheceu o trabalho de Kica de Castro. De lá para cá já posou para catálogos como para marca de roupas Fator Brasil. “Quando me vejo produzida nas fotos, me sinto linda, a autoestima vai lá em cima.” E completa: “O importante é estar bem.”

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