Mulher sem Frescura

Sem Título-3

A mulher, pela sua própria natureza e dentro de uma perspectiva biológica, é acostumada a vivenciar mudanças profundas. Na adolescência, ela menstrua, fenômeno que provoca transformações físicas, psicológicas e emocionais expressivas. Mês a mês tem a possibilidade de engravidar e, quando isso acontece, imagine o que é gerar um filho e nutri-lo com os recursos de seu próprio corpo?

Portanto, falar de mudança para nós, mulheres, é um assunto familiar. À medida que nos apropriamos dessa natureza e de um intenso aprendizado social, podemos agregar um jeito feminino para a condução de inúmeros processos e papéis, seja em casa, no trabalho, em sociedade, ou para o mundo em um sentido mais amplo.

Em tempos hoje remotos, a mulher tinha um papel bem definido na sociedade ocidental: ficar em casa cuidando da prole, da família e da casa. Conforme avançamos, esse lugar ficou pequeno e as mulheres se lançaram no mundo do trabalho, atuando em princípio de acordo com os modelos aprendidos, isto é, interpretando o modelo masculino e, na sequência, décadas mais tarde, fazendo a crítica construtiva e propondo um jeito único de atuar frente às mudanças.

Porém, para que isso ocorresse, nós, mulheres, tivemos que passar por um processo de transformação, o qual implicou em consequências, novas necessidades, descobertas, negociações de todas ordens (conjugais, maternas, profissionais), mas principalmente a repatriação de um “território emocional” que sempre existiu, sempre fez parte embora pouco visitado, do universo feminino: a autoconfiança. E, digo, há muito o que se denominar desse território ainda.

Sentir-se autoconfiante é ter um conceito positivo de si, acreditar que é capaz de desafios ousados, abrindo mão da síndrome da mulher maravilha e das ideias perfeccionistas. Isto é, não dá para ser 100% em tudo: corpo malhado de academia, mãe exemplar, presente em todos o momentos, esposa incrível, sexy e dedicada, profissional que atinge todas as metas e sabe tudo e por aí afora.

Em muitas situações os 80% estão ótimos e atendem bem o que ela e o outro precisa. Detalhe: não estou dizendo que farei o meia-boca; simplesmente entendo que não sou perfeita e me conscientizo de que o mundo nem me pede isso.

Quando nos sentimos autoconfiantes, seguras, ficamos à vontade para fazer a gestão da mudança com a nossa identidade. E aqui me refiro a todas as mudanças nas organizações: as necessárias, as indesejadas e até mesmo as mais temidas, como as mudanças diante de uma crise econômica, a fusão entre duas multinacionais, ou a compra de uma outra empresa.

Por exemplo, Deise Kindinger, gerente de desenvolvimento de negócios da Volvo, elegeu a colaboração e inclusão de mulheres como colegas de trabalho. Na organização onde trabalha, o ambiente é sensivelmente masculinizado: chefe e pares são homens, e o negócio da empresa é do universo masculino, produto pesado. Anteriormente em reuniões, ficava indignada e sentindo-se ameaçada quando a sua estratégia não era aprovada ou escolhida. “Hoje sei que isso é uma perda de tempo e o meu lema é: não quero ganhar, só quero chegar mais longe; estou mais receptiva às ideias dos meus colegas e as reuniões tornaram-se mais amenas”.

Além disso, é importante que você saiba estabelecer parcerias e também compartilhar responsabilidades dentro e fora das organizações, pois num cenário de mudança, a exigência aumenta.

Se a mulher quiser continuar fazendo tudo sozinha chegará à exaustão. A fala da Ana Paula Camargo, diretora de RH da Renault do Brasil, traduz essa ideia: “No Brasil de hoje, acho que há mais barreiras internas do que externas para o avanço das mulheres. A cada mudança, questionamos se ‘vamos conseguir dar conta de tudo’: do trabalho, da casa, dos estudos, da família, etc. Acredito que dar conta pode até ser possível, mas à custa de um esforço enorme e talvez desnecessário. Pensar no que podemos ‘abrir mão’ dá mais trabalho no início, pois é um exercício de desapego, mas cria espaço para novos desafios chegarem.”

Fora isso, é importante ter uma estratégia e método para implantar um processo de mudança; algo fundamental que Thays Lysko, gerente de RH da Phillip Morris fez quando tiveram que transferir a planta da fábrica de lugar.

O feminino não exclui, em hipótese alguma, as estratégias e as características ditas como masculinas. À medida que a mulher se apropria do seu poder, respeitando a sua essência, torna-se competente e com foco. Tem capacidade de realizar e fazer acontecer, pode ocupar o lugar dela no mundo e ser igualmente condutora e protagonista da implantação das mudanças de uma forma mais construtiva e inclusiva.

A questão é se apropriar da sua essência e fazer o que precisa ser feito. Com delicadeza. Mas sem frescura.

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